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Kuczynski et al. (2020) apontam que a consciência pessoal e sobre o outro são importantes para a interação. Assim, a primeira envolve principalmente a percepção da experiência emocional atual e é consistente com várias descobertas sobre a melhora da clareza e da expressão de sentimentos, bem como da competência relacional. o conhecimento sobre o outro envolve a precisão empática, sendo um constructo relacionado à tomada de perspectiva, capacidade de responder bem-sucedido e de proximidade relacional. Adicionam ainda uma revisão do trabalho de Reis e Gable (2015), que observaram que a ausência de tal precisão implica em que tentativas bem-intencionadas de interação sejam percebidas como insinceras, insensíveis ou sem sincronia com os objetivos e as necessidades do falante. Na formulação de Kuczynski et al. (2020), a coragem compreende um amplo leque de comportamentos de autorrevelação ocorridos durante a interação. Cordova e Scott (2001) são referenciados porque enfatizam que as revelações são corajosas quando ocorrem em um contexto de maior probabilidade de punição (ex., rejeição, crítica ou constrangimento) e que, sem esse contexto, tal classificação não se aplicaria. Afirmam que isto é consistente com a ênfase do MPI (Reis & Shaver, 1988), cujas primeiras formulações teóricas sobre a intimidade destacavam a necessidade do estabelecimento da confiança no parceiro para o outro se sentir seguro e se autorrevelar com vulnerabilidade. Ainda sobre a coragem, Kuczynski et al. (2020) ressaltam a importância da autenticidade na autorrevelação, pois se trata da mais forte preditora da satisfação no relacionamento (mais do que gênero, autoestima ou apego adulto), além de se tratar de uma ‘tomada de risco íntima’ (Kernis & Goldman, 2006). No trabalho de Kuczynski et al. (2020), o constructo que vinha sendo definido como amor em toda a literatura prévia (Tsai et al., 2009) é denominado de responsividade. Consistentemente com o MPI, a responsividade se refere à nossa capacidade de corresponder à ação do outro. Descobertas identificaram diversos componentes importantes desta capacidade para a intimidade, incluindo reações experimentadas como compreensão, validação e cuidado (Maisel, Gable, & Strachman, 2008; Canevello & Crocker, 2010), espelhar mais as necessidades emocionais do que as instrumentais (Cutrona, Shaffer, Wesner, & Gardner, 2007), reconhecer e respeitar a autoeficácia da outra pessoa (Bolger & Amarel, 2007; Maisel & Gable, 2009) e afirmar a segurança do outro na relação com expressões de sentimentos compartilhados e recíprocos. Porém, um debate tem-se estabelecido entre os profissionais que utilizam a FAP, girando em torno da preferência pela descrição original de seus objetivos, essencialmente individualizada e claramente referindo-se aos conceitos do BR, ou apenas definições mais atuais em TNIs, de caráter mais nomotético e aparentemente desvinculada da tradição comportamentalista (Kanter, Holman, & Wilson, 2014). No entanto, seria possível avaliar e intervir sobre o vínculo social de um cliente com outra pessoa a partir das definições apresentadas por tal ponto de vista teórico, ou seja, com TNIs, assumindo o modelo metafórico sobre ‘filtros interpretativos’ de Reis e Shaver (1988)? Ou seria melhor utilizar uma operacionalização derivada da descrição de relações comportamentais observáveis, valiosas justamente porque preservam a referência a abstrações complexas como o reforçamento ou a transformação de estímulos, ou seja, oferecer uma definição behaviorista radical? Este trabalho não pretende furtar do leitor o seu direito de escolha sobre qual enfoque utilizar ao abordar a definição do Modelo ACL, mas seu objetivo é propor a alternativa faltante: definir consciência, coragem e amor de forma coerente com a linguagem dos aplicadores da FAP identificados com a abordagem comportamental. O BR (Skinner, 2011), ou a filosofia de ciência que fundamenta a abordagem comportamental, refere-se ao conjunto de interpretações ligadas às diversas relações comportamentais documentadas pelos métodos experimentais. Skinner (2011), ao apresentá-lo como uma alternativa para abordar o tema das causas do comportamento aos modelos metodológico, estruturalista e positivista, afirma que O behaviorismo radical [...] questiona a natureza daquilo que é sentido ou observado e, portanto, conhecido. Restaura a introspecção, mas não aquilo que os filósofos e os psicólogos introspectivos acreditavam ‘esperar’, e suscita o problema de quanto de nosso corpo podemos realmente observar. (Skinner, 2011, p. 18-19, grifo do autor) Considera-se, então, que o clínico de orientação comportamental, que privilegia a observação de relações comportamentais coerentes com modelos experimentais e dados de pesquisa básica, derivados de observação direta por mais de uma pessoa, pode se beneficiar de uma descrição operacional derivada do BR. Por isso, a seguir é apresentada uma revisão da literatura dos termos consciência, coragem e amor, e sinônimos, em uma seleção de livros importantes da obra de Skinner. Método Foram realizadas uma revisão narrativa e uma análise conceitual de textos sobre o modelo ACL e consultados os seguintes livros da obra de B. F. Skinner: Ciência e comportamento humano (Skinner, 2015), Sobre o behaviorismo (Skinner, 2011), O comportamento verbal (Skinner, 1978a), Walden II (Skinner, 1978b) e Questões recentes na análise comportamental (Skinner, 1991). Apesar da riqueza de publicações sobre o Modelo ACL na FAP (Kohlenberg et al., 2015; Miller, Williams, Wetterneck, Kanter, & Tsai, 2015; Tsai, Fleming, Cruz, Hitch, & Kohlenberg, 2015; Muñoz-Martínez, & Follette, 2019), foram selecionados apenas textos que aqui foram considerados relevantes para destacar o início de sua adoção, a expansão de seu escopo e a definição mais atualizada e completa dos seus conceitos ou construtos. Resultados e discussão Histórico da adoção dos termos consciência, coragem e amor na literatura sobre a psicoterapia analítica funcional, Consciência, coragem e amor como técnica A primeira utilização do Modelo ACL na FAP se deu na publicação do segundo manual terapêutico. Nesta publicação, passou a integrar algumas das definições dos elementos de sua técnica terapêutica e dos valores pessoais do terapeuta FAP que podem ser afirmados para o cliente com o objetivo de ajudá-lo a atingir a realização psicológica (Tsai, et al., 2009). Em seguida, o Modelo ACL foi utilizado para complementar as definições originais da técnica terapêutica (Tsai, Callaghan, & Kohlenberg, 2013). Finalmente, para definir os objetivos a serem alcançados tanto pelo terapeuta quanto pelo cliente por colaboração mútua durante as sessões (Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017). Consciência Como uma descrição alternativa da técnica terapêutica da FAP, significa procurar por comportamentos do cliente que sejam relevantes para o trabalho clínico com objetivos interpessoais, isto é, equivale à regra 1 (Tsai, et al., 2009). Como um valor pessoal do terapeuta, a consciência é apresentada como um sinônimo de insight e de consciência plena (mindfulness). Significa prestar atenção ao que ocorre no presente ao invés de se engajar em padrões de comportamento mecânicos ou compulsivos. Além disso, quer dizer se interessar pelas causas dos próprios comportamentos e dos outros, especialmente aquelas que podem ser identificadas na história familiar e nas experiências pessoais. Por fim, avaliar e se dispor a trabalhar na melhora de comportamentos indesejados (Tsai et al., 2009). Como uma forma de complementar a descrição original da técnica terapêutica sem privilegiar a terminologia comportamental, é descrita como estar plenamente consciente, prestar atenção ou simplesmente reparar na forma como o cliente afeta o terapeuta, considerando ambos como membros de uma comunidade social. Também significa estar claro sobre as diferenças entre as reações do cliente ao terapeuta e a outras pessoas que sejam igualmente importantes, como o cônjuge (Tsai et al., 2013). A consciência também é definida como um objetivo comum ao terapeuta e ao cliente, sendo constituída de três subclasses (Holman et al., 2017). 1. Consciência de si - Perceber o próprio estado interno atual, incluindo o resultado do impacto das ações do outro durante uma interação, além de pensamentos, memórias, imagens, sentimentos e emoções. Por exemplo, o cliente pode verificar que uma determinada intervenção do terapeuta lhe causa ansiedade. 2. Consciência dos próprios valores, objetivos e identidade - Envolve lembrar-se de quais consequências dos próprios comportamentos são reforçadoras e das próprias características que o/a diferenciam das demais pessoas. Assim, um terapeuta pode afirmar sua trajetória de superação da pobreza diante de um cliente socialmente vulnerável com dificuldade de adesão à terapia. 3. Consciência sobre o outro - Compreende a percepção do estado atual, valores, objetivos, identidade e impacto do próprio comportamento no outro. Remete às noções de empatia e tomada de perspectiva. É essencial para o engajamento subsequente bem-sucedido em comportamentos de coragem e/ou amor.
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